Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. Elaboração: CIM/UFLA (CIAGROS).
A relação de troca (RT) mede o poder de compra do produtor frente a um insumo de referência: quantas unidades do produto são preciso vender para adquirir uma unidade do insumo. É o indicador central dos informativos mensais do Campo Futuro porque sintetiza, em um único número, a dinâmica de duas variáveis que o produtor não controla — o preço que recebe e o preço que paga.
Em maio de 2026, a fruticultura enfrentou os dois lados dessa relação se movendo de forma desfavorável. De um lado, os fertilizantes em alta no mercado internacional; de outro, preços de banana, laranja e manga abaixo da média histórica para o período. O resultado foi um aperto sobre a margem do produtor — mais severo justamente nos sistemas mais dependentes de adubação nitrogenada. Vale notar que a valorização do Real em maio (dólar a R$ 5,06) atenuou parte do repasse do choque internacional ao custo em reais.
Os fertilizantes respondem por 25% a 47% do Custo Operacional Efetivo (COE), conforme a cultura e o município. Qualquer choque de preço impacta de forma assimétrica essas cadeias.
O preço das frutas é altamente sazonal. Quando a queda sazonal de oferta coincide com uma alta de fertilizantes, o efeito sobre a margem é multiplicado.
Com a Selic em 14,50% ao ano — entre os patamares mais altos em quase duas décadas — e inadimplência rural elevada, o custo de financiamento do custeio soma-se ao choque de insumos, tornando o ambiente de maio de 2026 um dos mais adversos dos últimos anos.
A fruticultura brasileira viveu dois episódios de choque de fertilizantes em cinco anos. O primeiro, em 2021–2022, decorreu da guerra na Ucrânia e da ruptura das cadeias de suprimento pós-pandemia. O segundo, em curso desde o fim de fevereiro de 2026, tem como motor o conflito no Oriente Médio e o bloqueio do Estreito de Ormuz, que retirou cerca de 2 milhões de toneladas de oferta global de ureia e elevou rapidamente as cotações internacionais.
A combinação de nitrogenados (ureia) e fosfatados (MAP) é particularmente crítica para a fruticultura: as duas fontes respondem por mais de 60% do gasto com fertilizantes na maioria dos sistemas de banana, laranja e manga monitorados pelo Campo Futuro. O choque de 2026 também é mais concentrado no tempo que o de 2022 — janela curta, que deixou pouco espaço para a compra antecipada.

Alta no período do conflito. No mercado internacional, o preço de importação (FOB – valor sem custos de transporte) atingiu US$ 572/t em maio de 2026, ante US$ 369/t um ano antes (+55%). Convertida a R$ 5,06/US$ e com 15% de distribuição: cerca de R$ 3,33/kg.
Alta no período. O preço de importação (FOB – valor sem custos de transporte) foi de US$ 797/t em maio (+24% a/a). Pressão estrutural de demanda global por fosfatados torna a normalização mais lenta que a da ureia. Referência a R$ 5,06: cerca de R$ 4,63/kg.
Preço de importação (FOB – sem custos de transporte) de US$ 362/t em maio (+22,8% em doze meses; cerca de R$ 2,11/kg). É a matéria-prima de menor pressão no curto prazo, mas — diferentemente de ciclos anteriores — também acumula alta.
Os preços ao produtor monitorados em maio de 2026 confirmaram o lado deprimido da relação de troca. A banana nanica — variedade de maior produção nacional e mais alta volatilidade — recuou para patamares críticos no pico de oferta sazonal, enquanto a prata anã, de maior valor, manteve-se mais estável. A laranja pêra cedeu com o início da colheita paulista, e a manga, embora ainda com preço unitário mais elevado, registrou forte queda na comparação com o maio excepcional de 2025.

A nanica caiu fortemente entre março e maio (sazonalidade de maio), atingindo o menor nível da série para o mês em regiões como Bom Jesus da Lapa (BA). A prata anã por sua vez, se manteve a patamar razoável.
A laranja pêra recuou na passagem de abril para maio, refletindo a pressão do início da safra, especialmente no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo Mineiro. Maio marca o início da colheita; historicamente os menores preços do ano concentram-se entre maio e agosto, com recuperação esperada a partir de setembro.
Maio corresponde à período de oferta mais tímida no Vale do São Francisco, com oferta reduzida. O preço atual representa normalização frente ao maio de 2025, que foi excepcionalmente elevado também frente a ritmo de colheita lento — leitura que exige cautela ao calcular a relação de troca.
Aplicando os preços de fertilizante (convertidos a R$ 5,06/US$, com 15% de distribuição) e os preços ao produtor do período, a relação de troca piorou para as três cadeias, mas com intensidades muito diferentes. A banana nanica é o caso mais grave; a prata anã mantém RT próxima da normalidade histórica; e a manga apresenta a melhor posição relativa, graças ao seu preço unitário mais alto.

Um dos piores níveis da série (RT 3,66), aproximando-se, sem superar, o pico de 2022 (4,48 com dados Comex Stat + PROHORT), mas ainda abaixo dele. Equivale a cerca de 166 caixas de 22 kg para adquirir 1 t de ureia.
Relação de troca próxima da normalidade histórica — reforça o argumento estratégico de diversificação para variedades de maior valor.
Uma tonelada de MAP equivale a cerca de 114 caixas de 40,8 kg de laranja, evidenciando o aperto sobre a citricultura.
A melhor relação de troca do grupo, mas com forte piora no ano: a RT da ureia subiu de 0,50 (mai/2025) para 1,36 — piora de cerca de 170%.
O cruzamento de preços e custos nas propriedades modais do Campo Futuro mostra um quadro inequívoco para a banana nanica: em praticamente todas as regiões monitoradas, a Margem Bruta estimada para maio de 2026 está negativa — o preço recebido não cobre sequer os desembolsos diretos de produção. A situação é transitória, ligada à sazonalidade, mas se o preço não se recuperar até julho, o impacto sobre o fluxo de caixa será severo.
Considerando os fertilizantes como bloco — que respondem por cerca de 47% do COE em Bom Jesus da Lapa (R$ 671/t em um COE de R$ 1.420/t) — e as variações confirmadas ao produtor (ureia +40%, MAP +20%), estima-se que o custo desse grupo suba cerca de 12%, elevando o COE para aproximadamente R$ 1.503/t. A prata anã e a manga do Vale do São Francisco mantêm Margem Bruta positiva. Na laranja, a compressão vem mais pelo lado da receita do que pelo custo, e o choque pleno de fertilizantes deve se materializar entre julho e setembro.

Margem Bruta estimada (R$/t) — COE de referência ≈ R$ 1.503/t
Preservar a regularidade da oferta e a capacidade de investimento do fruticultor diante de períodos de aperto exige uma base produtiva economicamente ativa. Mais do que reagir a uma dificuldade conjuntural, a cadeia pode avançar em frentes que reforcem a viabilidade da atividade e reduzam a exposição do produtor à volatilidade de insumos e de preços ao longo do tempo.
Fortalecimento do monitoramento contínuo de preços de insumos e de produtos — papel central do Campo Futuro — ampliando a base de informação que apoia as decisões da cadeia produtiva.
Construção e difusão de mecanismos — como compras coletivas e contratos de prazo mais longo — capazes de reduzir a exposição da cadeia ao preço spot dos fertilizantes.
Estímulo, por meio de assistência técnica e pesquisa, à eficiência no uso de nitrogênio e a práticas como a fertirrigação nos sistemas irrigados, reduzindo a exposição estrutural ao choque de insumos.
Condições de custeio adequadas, via Plano Safra 2026/2027, que permitam à atividade atravessar os períodos de maior estresse de margem com menor risco de desinvestimento.
O horizonte do segundo semestre traz riscos mais elevados que o habitual, mas com janelas plausíveis de recuperação. O choque de fertilizantes tem componente especulativo e geopolítico que pode se dissipar caso a oferta global se normalize; a sazonalidade favorece a recuperação de preços de banana e manga; e a citricultura aguarda o principal balizador do período, a estimativa de safra do Fundecitrus.
Cenário-base de acomodação da ureia ao longo do segundo semestre, com possível alta sazonal no 4º trimestre (demanda do Hemisfério Norte). A normalização do MAP tende a ser mais lenta.
Recuperação sazonal esperada entre agosto e outubro, quando recua a oferta do Norte de MG e da BA; a manga ganha com a abertura da janela de exportação para a UE em agosto.
A estimativa de safra do Fundecitrus é o principal balizador; redução de área e produtividade já estimada pode sustentar recuperação a partir de setembro.
Probabilidade de El Niño superior a 80% no segundo semestre, chegando a cerca de 96% no fim do ano (NOAA/CPC, maio/2026; El Niño Watch), com risco de excesso de chuvas no Sul e seca no Nordeste — atenção redobrada para SC, RS e o sistema irrigado do São Francisco.
A conjuntura de maio de 2026 representa um dos momentos mais desfavoráveis da relação de troca para a fruticultura dos últimos anos, ainda que, para a banana nanica, o nível observado se aproxime — sem superar — do pico de 2022 (RT 4,48, com dados Comex Stat + PROHORT). O aperto comprime a Margem Bruta a ponto de torná-la negativa para o produtor de nanica em praticamente todas as regiões monitoradas, enquanto prata anã e manga do VSF preservam margem positiva, com relação de troca pior, porém administrável.
"Mais do que uma discussão pontual sobre preços, a fruticultura mostra que a viabilidade do produtor depende dos dois lados da relação de troca ao mesmo tempo — o que ele recebe e o que ele paga. Quando ambos se movem na direção desfavorável, é a capacidade de investimento na base produtiva que fica em risco."
Condições de custeio favorecidas, via Plano Safra 2026/2027, são decisivas para a cadeia atravessar o período de maior estresse de margem.
O estímulo, via assistência técnica e pesquisa, à eficiência no uso de nitrogênio reduz a exposição estrutural da cadeia ao choque de fertilizantes.
Nota metodológica: variações de RB iguais a zero em determinadas praças refletem ausência de resposta do contato de preço, e não estabilidade real de preço. As estimativas de custo e margem têm natureza analítica e não substituem os dados oficiais dos painéis de levantamento de custos do Campo Futuro. Conversões de fertilizantes em reais utilizam câmbio de referência de R$ 5,06/US$ (fechamento PTAX de 29/05/2026) e preços FOB de importação do Comex Stat (maio/2026): ureia US$ 572/t, MAP US$ 797/t, KCl US$ 362/t, acrescidos de 15% de distribuição.
Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA/Senar.